A geração PlayStation


 
Todo o percurso humano é uma luta de poderes.
Eu sou mais forte, não sou consciente disso, mas tu ouves-me e idolatras-me, não gosto de ser idolatrado, mas sabe bem saber que gostam de mim. Acho que vou fazer algo para ter mais pessoas a gostar de mim, tenho de dar nas vistas, não é?
Eu sei, e tu?
Eu faço, e tu?
Eu tenho,…e tu?
Os ganhos trazem poder á criança, necessariamente, ela saí a correr em busca de mais.
E o que é que ela conhece que os outros não conheçam? Onde pode ela ir buscar algo que os outros não tenham?
Mas algo que só ela saiba e os outros possam ficar a saber que foi ela que descobriu….
E quando todos já souberem?….
Bem, tem de se procurar mais, mais, mais…
Penso que é aqui que entra a TECNOLOGIA, “sinónimo” de novidade, e que invade as nossas casas.
Porque o adulto também é assim, também ostenta e quer ser o primeiro.
Esta sociedade, sedenta de se superar, quer mais. Sempre mais.
Esta sociedade, sedenta de ir mais além, tem de se sustentar economicamente.
O mercado tem uma boca enorme, e é preciso estar sempre a alimentá-lo, senão, deixamos de ser os primeiros, e passam a ser… os Outros.
A criança vê por cima do nosso ombro, e assim que pode esgueira-se para a nossa frente, e pergunta:
“- Para que serve? Faz coisas fixes?…”
Ela corre para a escola a contar, para ser ela a primeira.
Depois, algo acontece. Aquilo que faz coisas fixes, também já é dela, a sua condição de proprietária é atingida, e a partir daí, já não pára.
Eu TENHO…e tu?
Mas o meu é melhor que o teu!…
E a sociedade produz, para que o teu também possa ser melhor que o dele.
A ciência evolui e supera-se, melhor e mais rápido é um lema, mas mais barato, faz com que mais Eles o tenham e queiram ter melhor que os Outros.
E o menino, rapaz, homem já TEM.
Mas parece que o professor NÃO TEM. O adulto que ensina e tenta ser o jogo nas mãos da criança, não consegue competir. E pior, não entende, não quer apreender, ou até pedir ao menino, rapaz, homem que o ensine.
O universo de adultos, parece voltar costas ao ritmo rapidíssimo com que tudo isto se passa.
Simplesmente pergunta: “…que língua falam eles?”…”Cada vez é mais difícil de os entender!”
E a resposta que obtém de outros adultos como ele é: “…esta geração está em crise”.
Pois está… mas crise não é sinónimo de desgraça, é sim um principio desejável de mudança. È um sinal de que as coisas estão diferentes e ascenderam a outro patamar.
A vida continua e o adulto já tem de se pôr em bicos de pés para ver por cima do ombro da criança.
A evolução da ciência é um facto impulsionado pelo próprio menino, rapaz, homem.
Como pode o aluno ouvir e ver um adulto, que ostenta a sua frustração, apregoando a falta de conhecimento dentro de uma sala de aula, onde toda a platéia o olha com desprezo por não ter melhor, fazer melhor, saber mais que o próprio aluno, daquilo que realmente lhe interessa.
Nesta luta de poder o professor perde, e a criança, Ser de uma dureza terrível, Ser que não tem pudor em gastar quaisquer palavras, por simples acto de educação, que lhe é “mal vendida” pela sociedade, ganha em conhecimento, e critica de forma rude e directa o adulto que tenta ser melhor que ele.
Costumo dar um exemplo, quando ouço um adulto exasperado a dizer que não consegue explicar, ensinar ou demonstrar, faço-lhe a seguinte pergunta:
Como pode alguém que tem acesso a um mundo virtual, onde a sua imaginação e perícia, é posta á prova, onde a luta de poder é visível e agressiva, dominada pela TV, Vídeo Jogos, Internet, etc., chegar a uma sala de aula e criar laços de entendimento, afectividade, ter vontade de saber o que o Professor ensina, olhando para um livro e despejando informação audio directamente das suas capacidades vocais, para um aluno, que tem á frente um caderno onde toma notas, concentrando-se, não naquilo que o professor diz, mas na rapidez com que ele fala, preocupando-se em não ficar para trás, pois pode deixar de escrever algo de importante. Nem tempo há, para raciocinar e questionar.
Por vezes, umas horas antes, este aluno era um intrépido piloto de uma aero-nave, em perseguição de inimigos. Num espaço onde qualquer erro de manobra trazia o desastre. Onde a perspicácia era a sua grande arma num combate atroz de morte. Num combate onde a morte simplesmente fazia com que o nível voltasse ao ponto de partida e tudo voltasse a acontecer.
Este mundo de aventura e construção, não pode competir com um modelo de ensino parado e rotineiro.
Cada vez mais uma criança demonstra capacidades que não estão ao alcance de muitos dos adultos que as ensinam.
A criança não tem de falar a linguagem do adulto, mas será o adulto que tem de saber ouvir e aprender a falar a linguagem que corre nos corredores da escola .
Podemos, como indivíduos, não ser capazes de criar ferramentas multimédia e interactivas, nós, simples adultos que tentamos ensinar agarrados a uma pequena bóia de salvação.
Mas a instituição que é a sociedade educativa, terá de ser capaz de fornecer os tradutores de língua visual, pelo menos visual, que façam falar a língua das crianças, que exigem mais, mais,…mais.
 

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