Exigimos da mente


-Objectivos
A satisfação que temos quando vemos toda a turma unida num ideal comum, não é assim tão difícil de atingir.
Quando essa vontade do aluno é genuína, tudo parece mais rápido, mais fácil.
Não é o educador/formador que cria objectivos, são os educandos/formandos que os querem atingir.
Costumo comparar um professor, e mesmo sendo alvo de chacota de professores, e até algumas expressões pouco suaves, a um Vendedor.
Para mim, o professor vende, e o aluno, só compra se quer.
Um bom professor, é um óptimo vendedor.
Bom seria, que muitas das técnicas de marketing, fossem colocadas em prática numa sala de aula, ao nível da comunicação, ao nível da informação e até mesmo no nível da prestação de um serviço.
Tudo o que se passa na estrutura social, no dia-a-dia normal de um indivíduo, se passa numa acção de formação e educação. As lutas de poder, as competições e até mesmo as faladas coopetições.
È um permanente esticar de corda que se verifica numa aula. De um lado um professor, e na outra ponta, dividida em várias extremidades, está um aluno. O professor pode fazer muita força para puxar e chegar ao fim exausto e insatisfeito, ou, pelo contrário, convencer  os alunos a deixarem-se ser levados na aventura de aprender, caso contrário, pode até acontecer, que os alunos nem puxam todos no mesmo sentido. Caos.
Claro que um factor importante é a criatividade e cumplicidade do educador, e estou a aplicar vários termos que designam a actividade de ensinar, porque seja um educador, professor, formador ou até um pai ou mãe, tudo é uma troca de experiências.
A criatividade é um engenho, a cumplicidade uma arma.
Numa sala cheia de cúmplices, estão indivíduos com objectivos comuns.
-Concentração
Se satisfeitos os requisitos anteriores, a força que a concentração exerce na aprendizagem, é feroz.
Estimular a capacidade de concentração deveria ser um dos principais objectivos do ensino desde tenra idade. Compreender e olhar no espelho o processo, ensinar e instruir.
As grandes dificuldades com que deparo no ensino básico, uma delas é, que todo o esforço de ensinar a provocar o acto de concentração na criança, surge de forma inconsequente e descuidada.
Como eu já referi, é um efeito que surge com naturalidade na criança durante os seus primeiros passos, e essa concentração, salta de foco em foco muito rapidamente, sem controlo próprio.
A distracção, como inverso da concentração, acontece normalmente, e não há um retrato do alvo de ataque. Reparei sempre, que crianças com maior capacidade imaginativa e maior competência de personalidade, eram na maior parte das vezes rotulados como os “mal comportados e distraídos”.  Sempre me senti aliciado a tentar “compor” os piores alunos da sala.  Normalmente surgiam mentes aguçadas e perspicazes por trás da rebeldia. Senti muitas vezes a frustração do “não conseguir” do outro lado. O acontecer rotineiro de fazer o salto de foco em foco da criança menor, é um facto.
Seria óptimo que a criança se pudesse concentrar sempre que quisesse. Muitas vezes essa dificuldade provoca a incapacidade de apreender os dados que lhe são fornecidos.
Talvez, pequenos exercícios simples de atenção, agradáveis de praticar brincando, se fossem aplicados naquele que vai aprender, fossem da maior utilidade, para além de todos os conteúdos programáticos e temporizados. Mesmo nós, como adultos, sentimos a frustração de não conseguir aquele grau de concentração exigível numa tarefa. E quando a mesma, é ingrata?!…
Comer e falar, vai de começar…e se fosse:
Brincar e estudar, vai de começar.
-Exigências
Realmente, de nada nos valem as exigências feitas, se do outro lado temos paredes imóveis, onde batemos, martelamos, vociferamos contra elas, mas elas não se movem.
Não deveria ser o educador a exigir, mas sim o educando.
A vontade de evoluir e de exigir de nós a demonstração de todas as capacidades, surge naturalmente na altura em que se diz que atingimos o estado de maturidade, em que uma força de personalidade capaz e rígida, vem ao de cima.
Mas esta maturidade e personalidade, não sei bem diferenciar as duas, que supostamente são referidas como características de uma mente adulta, apercebemo-nos que muitas vezes, nos mais novos já existe. Muitas crianças atingem esse estado muito cedo, ou se calhar deveria dizer também, que, muitos adultos também o atingem muito cedo.
Em algum passo da educação, foram apreendidos valores e práticas, por vezes de forma inconcebível, casual. Causas essas que deveriam ser perfeitamente identificáveis, e como tal praticadas num determinado momento ideal.
Provavelmente esse momento ideal seria algures na infância, e com isto, não acredito que roubaríamos a capacidade de brincar e ser criança, pois até um adulto responsável se diverte brincando. Penso que isto seria um sinónimo de “estar de bem com a vida”.
São coisas simples, mas da maior complexidade de atingir. São simples porque realmente acontecem sem como nem porquê, mas são muito complexas porque não as conseguimos provocar.
As exigências de desempenho, de objectivos, etc., deveriam vir do indivíduo, e não ser impostas, muitas vezes gratuitamente e inconsequentemente, provocando reacções contrárias e de efeitos de frustração evidente.
Estará o Professor preparado para ir á frente?
A tarefa é sempre ingrata quando somos os primeiros a fazê-la. Quando a experiência e ferramentas, têm de ser desbravadas por não possuirmos um lugar comum a seguir. A troca de experiência é muitas vezes a base do conhecimento, e traz como fruto uma nova experiência.
Nem todos teremos a capacidade de entender e proceder, e todos os casos são únicos. No entanto a recolha individual de experiências, baseada numa abertura bem direccionada e fomentada do professor, irá certamente contribuir para um desenvolvimento capaz do processo individual de ensino.
Necessariamente o professor terá de assumir um tipo de atitude muito diferente, o dialogo construtivo deve ser reposto com esforço da sua parte.
Não é invulgar encontrar professores de idade mais avançada, que por caprichos de feitio, ou real sapiencia da profissão que praticam, são adorados e consultados pelos seus alunos. Necessariamente, posso detectar aqui, situações em que se verifica uma comunicação bipolar. Nem sempre as tecnologias vencem a razão humana, e o calor humano da comunicação, que quando presente e estimulado, surte os efeitos desejados de aprendizagem e educação. No entanto, os conteúdos mal estruturados, obrigam por vezes a grandes “cambalhotas” e um abusivo, mas benéfico, não seguir de linhas condutoras. Nem sempre são os professores mais novos, aqueles que atingem os picos de diálogo.
Mas temos realmente de acreditar, que a linguagem mudou, o ritmo mudou, a abrangência de conhecimentos é maior. Caminhamos provavelmente para uma especialização do estudante que pode realmente acontecer mais cedo do que esperávamos. Certamente que a informação é muito mais vinculada e de carácter mais generalista, e por tal, será o papel do professor, orientar o aluno, nesta profusão de conteúdos e sugestões de caminhos.
Mas necessariamente, o professor/formador/educador, deverá estar sempre num patamar acima do aluno, no entanto terá que ter a habilidade de descer e ser, ele próprio, o amigo e cúmplice do jogo.
Esta relação de avanço tecnológico, do qual o aluno é sedento, com o compromisso humano de presença e companheirismo, é sem dúvida alguma, condição que levará à qualificação de um sistema.
Mas estará a formação do professor de acordo com esta tarefa? Terá o professor um abertura consciente para o aprendizado proposto pelo próprio aluno. Poderá um adulto, parar, olhar para trás, e realmente ver que a criança também lhe pode ensinar a comunicar?
Decididamente o professor terá de seguir á frente do seu aluno, e continuar a ser visto, como aquele que tem os conhecimentos, e experimentação, que o aluno deseja para si, para atingir as suas próprias metas.
As perguntas de um aluno, nunca deverão ficar sem resposta.
Cai muito mal.
Ciclo Vicioso
Todo este avanço da ciência e tecnologia, tem produzido uma situação, quanto a mim, muito interessante, e tem de ser bem ponderada por parte do adulto que quer educar.
Esta fase da computação, nestes últimos 10 anos, em que o processador entrou definitivamente na vida das crianças, provocou um aumento de ritmo de entendimento cognitivo muito acentuado.
Senão vejamos: um computador vendido no mercado de há seis meses atrás, já é hoje uma máquina antiga. As amortizações de equipamento informático, exigem que façamos render o peixe num curto espaço de tempo.
Aquilo que o estudante viu fazer, e se admirou com tal capacidade, num computador de secretária, hoje, acha que foi pouco, que passado um ano “já era”, agora um portátil faz muito mais. E amanhã fará ainda melhor.
O ciclo está a correr de tal forma rápido, que uma criança, e estamos a falar desta geração que se forma nas nossas escolas durante este período em que escrevo, enfrenta uma evolução acérrima de tecnologias. Aparentemente, num mesmo período de crescimento, a criança, ou jovem, assiste ao cumprimento de vários ciclos de evolução cientifica e tecnológica.
Terá o professor tempo para se adaptar? O problema já não pode ser o uso do rato e teclado. Se o adulto agora já entendeu e é praticante da “pendrive”, não vê, que o mp3 portátil (aqui quase soa ridículo usar este termo portátil) já serve como unidade de armazenamento, e não só de ficheiros de processador de texto, transporta vídeos e permite visioná-los.
Uma apresentação em Power Point já deve ser uma brincadeira de crianças. Porque estamos a obrigar o aluno a tomar apontamentos, se ele pode gravar o vídeo da aula no telemóvel?
Volto então a perguntar:
Estará o Professor preparado para ir à frente?

2 comentários

Filed under Exposições

2 responses to “Exigimos da mente

  1. Fatima

    Oi Prof!!!!!!!!
     
    Adoro este termo. Retorno à  sala de aulas, a irreverente que fui enquanto aluna. Acho que não iria gostar de me ter como aluna…mas isso fica para depois.
     
    Estou aqui do outro lado. O lado de mãe, educadora e que nem sempre consegue concordar com esta vossa forma (digo vosso por me movimentar num círculos de alguns professores –  matemática, física, musica –  tem tudo a ver!) de por as questões. Esses meus amigos , embora pais também, como professores  acho que não conseguem atingir um grau de isenção  que lhes permita  analisar as questões do ponto de vista dos pais.
     
    A minha filhota tem 9 anos. Desde o 1º ano que me deparo com dificuldades de gestão de tempo. Nas cidades as crianças têm uma carga horária de aulas igual à  carga horária laboral dos adultos/educadores. As crianças começam com 6 anos, quando não é com menos – infantários, com o stress normal de um adulto. O acordar 7 da manhã , transportes públicos (chegando a ser mais que um em cada percurso), entrar na escola 9 horas ….aulas…aulas ..actividades…e, 18 horas os pais estão à porta das escolas para os levar a correr para a natação, musica ….etc. No meu caso é correr 3 vezes por semana para o Sporting para o hip-hop, no ano anterior era natação. Tudo isto para chegar ao TPC (que segundo a minha filha já não é Trabalhos Para Casa mas sim Tortura Para Crianças – ainda vamos ter uma nova versão do Another Brick in the wall).
    Após chegar a casa fazer os TPC a correr, com alguns gritos misturados pois o cansaço, paciência e disponibilidade  já não dá para mais  de parte a parte.  Sobra algum tempo para o convívio familiar? Nós pais  exigimos demais das crianças? Sim exigimos. E vocês Professores ?! o Objectivo dos TPC é mesmo tortura para crianças?… eu vou acrescentar mais umas letras TPCEM – Tortura Para Crianças E Pais.
     
    Ainda tenho mais a acrescentar .. relativo aos métodos de ensino … etc … mas fica para amanhã já são horas de nanar.
     
    Vou tentar puxar os meus queridos amigos profs para aqui … para  serem mais contra uma.
    Mas vou ler tudo com muita atenção. E ainda não acabei esta questão, pois o seu post tem muito que se lhe diga.
    Em relação ao post seguinte que só ainda vi o nome …. Parece que também há quem lhe chame “Geração Bolicao” Tadinhos dos nossos filho.
     
    BF

  2. ღღღ Suzana ღღღ

    Tem toda a razão por isso vivo hoje a 2000km de Portugal, com um ensino de veras superior ao nosso, com uma carga horaria completamente diferente e com a relaçao escola casa extraordinária, onde a nataçao, ginastica musica e mts outras actividades (incluindo 3linguas diferentes) no horario escolar…O Luxembourgo é sem duvida um exemplo a seguir por isso se chama LUX, daki ñ saio e espero ter mais filhos mas nascidos e educados cá…A minha vida mudou completamente, continu-o com a mesma carga horaria mas com mt mais tempo para escutar e ensinar a minha princesa de 10anos…Parabéns pelo reconhecimento poucos pais chegam a tal conclusão ou os k conseguem chegar incolhem os ombros e perguntam o k poderão fazer…bjinhos Suzana…

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