Projeto Etérium


Tocar o que não tem corpo e aí procurar respostas.
Sempre me intrigou o conhecimento possível do papel que cumprimos aqui, de pés assentes neste bocado de chão.
Como muitos outros, não quero aceitar que sou uma chama esvoaçante, sem objetivos definidos, que acende e apaga finalizando seu ciclo, independentemente de ter dado ou não luz ao mundo.
Depois de, durante este meu caminho, ter tocado de leve temas do espírito, filosofias de vida e formas de estar, senti que se formava em mim um ideal de procura e uma forma de ser eu mesmo.
A procura dos meus próprios passos tornou-se um ímpeto de força maior.
Mas como procurar respostas sobre algo que não é tangível e que tanta controvérsia fundamenta?
Como abordar esta temática sem ferir ou entrar em discussões?
Não quero ser dono da verdade, mas quero ser livre de procurar, sem ser criticado por quem não sabe ou não quer saber.
Sendo eu alguém que sempre se sentiu bem dentro do universo artístico, logicamente escolho esse campo, onde as vontades são livres
para trabalhar.
É assim que surge o Etérium, como algo que se esvai entre nossos dedos, mas tem sentido, tem a força da união e destino.
Neste espaço de expressão sinto que posso pesquisar, interrogar, deixar que os sentidos evoluam de forma a procurar as respostas que talvez nem existam.

O projeto
Quando em 2006 encarei o facto de que me faltava um complemento na vida que tinha, pensei que me faltava uma forma de exprimir e partilhar as experiências que tinha acumulado.
Sentia falta do gozo que me dava quando transmitia alegria e energia ao papel que pintava com tanto carinho. Tinha passado muitos anos distante da pintura, das horas seguidas segurando o pau de pastel, o algodão, o lápis ou o pincel com que manchava e diluía a cor.
Com o desejo firme de voltar a pintar de forma sequencial e ritmada, abordei a tela e reencontrei a minha essência. Reuni o tema em torno das vivências que tinha e queria partilhar.
Procurei no meu ser a pergunta que queria fazer e cuja resposta iria partilhar.
Procurei construir um projeto que não fosse um andar à deriva uma vez que já decidira meu caminho. Mas, com o gosto pela polémica e pelo imprevisível, decidi questionar metodicamente a vida.
Perante isto, encontrei a questão que nos move e permanece tabu. Na natureza o animal nasce com o sentido da sobrevivência, e para tal segue em esquemas permanentes de competição, suplantando outros e suplantando-se a si mesmo em momentos de superação, que o leva à continuação da espécie e assim, à imortalidade delegada em sucessão.
Mas no fundo, o não ver o passado e o futuro na primeira pessoa, nesta consciência humana, provoca o sentido da criatividade e emotividade, em sentido de individualidade e egoísmo por querer saber onde esteve, onde está e onde estará.
O ‘antes’ da vida física e o depois da mesma, parecem um tabu que se olha com o desdém de quem não entende ou não o quer entender, numa consciência de que ao partir só fica o feito físico ou o toque na corrente das gerações.
Por isso questionei sem rodeios ou medos de má interpretação, consciente da liberdade artística que este meio me permite sem julgamentos de outrem, a vida e a morte.
Etérium nasce como algo que permanece, vindo não do nada, mas da corrente interminável da energia que alteramos neste espaço físico, e caminhando para a evolução de algo maior que o nosso próprio ser, algo que parece ser um aprimorar da consciência do bem e que provoca um aprimoramento e refino dessa mesma energia.
Mas o Etérium, apesar de etéreo, não é metafísico, é material e consciente. Questiona factos reais e emoções vividas como forma de concluir o que virá e de onde vem. É uma tomada de consciência do que somos, aqui e agora, é a visão do caminho que percorremos e vivemos, deixando no ar a pergunta: para onde vamos?!
O percurso levou a perguntas simples e de resposta rápida a princípio, mas de associação em associação, as conclusões foram-se formando. De imagem em imagem, ilustração de emoções
reais de sentido sempre positivo que tenta provocar no observador um valor positivo incrustado na mudança, adensa-se o ar que nos rodeia. Por tal, a positividade da imagem, das cores são luzes que surgem durante o trilho, como lampiões que nos iluminam os locais onde pisamos.
É esta a dualidade do Etérium, consciência do que vivemos e como o entendemos, que nos torna conscientes das opções que tomamos ou tomaremos, e a forma artística e emotiva, visual de comunicar algo que seria intraduzível em palavras. O Etérium tem imagem, tem ideias, tem som e é um festejo conjunto de sentidos que nos apela a um carnaval onde nos despimos de conceitos que sem querer nos implantaram ou que a nós próprios nos condicionamos, e vivemos de mente aberta sem receio. O Etérium provoca em nós o choque do abalo das nossas próprias estruturas. Construindo e reconstruindo fundamentamos e enrijecemos as nossas consciências.
E ao longo do caminho, foi-se alterando na forma e no valor as iniciais questões que foram colocadas.

O sentido foi-se alterando e a tomada de consciência do que realmente é importante, alterou-se.

Por isso dividi o ‘Ser/Estar’ em três círculos.
O espaço físico, economicista, real e táctil onde a matéria é eterna e transformável. O espaço dogmático de ideais, de dogmas, de consciências sociais e científicas onde se educa e constrói consciências. E um terceiro espaço energético de ilusões e desilusões, deformações, estados de espírito e permanente dualidade entre bem e mal, entre positivo e negativo, formas de encarar energias, dilemas de destinos, emoções e cruzamentos.
E esses mesmos círculos formaram três fases. Uma inicial tomou o sentido da viagem,Etérium – a  Viagem onde as primeiras questões tentam responder ao antes e depois desta vida física.

Etérium – a Viagem, Continuum, é uma tomada de consciência em que o que toma o verda- deiro valor é a viagem e seus apeadeiros e não o destino conclusivo, é a riqueza de quem saboreia o momento, a verdadeira vida.
Etérium – a Viagem, Vida surge como momento final onde uma visão pessoal se forma e ex- plica o sentido desta viagem na primeira pessoa. Visão intima do artista que se expõe e desnuda sua virtude. Assim surge este projeto de livro, a pedido de alguns, onde se explica o sentido e se põe por escrito, as palestras, tertúlias e deambulações durante as exposições a quem quis ouvir tais palavras. Fruto de experiências de vida únicas, pois todos devemos tomar consciência da responsabilidade e orgulho que temos de ter por sermos únicos, cada um em si.
Estas são as minhas!…
Sobre o Artista
A Pintura de Paulo Teixeira Lopes mergulha no éter da existência de conflitos e sentimentos paralelos que nos envolve na interrogação sobre a vida e o seu sentido.
Sentido que se capta num jogo de cores plurais que emergem da vontade sublime, da leveza expressiva, da inquietação humana transbordante de sonho e realidade.
O negro é a cor suporte (que se impõe direta ou indiretamente), é a arquitetura complexa sem a qual tudo perde sustentabilidade, é a incógnita do desconhecido inevitável e premente, é o código dito do nada mitológico que é tudo, em suma, o negro representa as margens por onde correm as cores do rio do viver do próprio homem.
Paulo Teixeira Lopes plasma na tela a força e a energia que envolve uma criação carente de espaço ideal, num processo de estruturação/desestruturação plástico de materiais quotidianos, que assume pelo fluxo das cores e pelo relevo das texturas a mensagem que pretende transmitir/ não-transmitir.
Os referentes não moram em nuvens etéreas, mas são equacionados pela mensagem que vai ao encontro da simplicidade presente, que se impõe ao olhar próximo e circundante do desejo desejado de pleno comprometimento/descomprometimento.
As obras de Paulo Teixeira Lopes são pois uma revelação que afirma a nossa admiração pela transparência dos pensamentos que têm cor, aroma e movimento dum futuro a conquistar…

Delfim Sousa
Diretor da Casa-Museu Teixeira Lopes

Slide show das obras Etérium

One response to “Projeto Etérium

  1. Transferência depauloteixeiralopes.spaces.live.com para pauloteixeiralopes.wordpress.com

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